Homilia de inauguração

Por ocasião da inauguração da Província da África Austral, o P. Agbonkhianmeghe E. Orobator SJ, Presidente da Conferência Jesuíta da África e Madagáscar (JCAM), pregou esta homilia. Uma tradução foi entregue também pelo P. Virgílio Costa SJ, Socius ao novo Provincial, P. Leonard Chiti SJ, e está disponível aqui e no final da página.

Homilia por ocasião da inauguração da província da África Austral

Festa da Anunciação 2021

“O que uma criança vê quando sobe a uma árvore é o que o ancião vê do chão junto à árvore.” Porquê? Porque o ancião está mais perto das raízes; e, como escreveu o poeta argentino Francisco Luís Bernárdez: “… o que a árvore tem visivelmente em flor/brota do que está enterrado no chão.”

Há 45 anos, o escritor afro-americano Alex Haley publicou o romance épico Raízes: A Saga de uma Família Americana. Haley compôs a sua narrativa a partir das histórias contadas pela sua avó. As suas histórias transportaram Haley de volta ao seu passado, às suas raízes, estendidas ao longo de várias gerações. O que Haley descobriu nas suas raízes mudou a sua vida e transformou o futuro da sua sociedade.

Hoje, dia 25 de Março de 2021, a província da África Austral nasce na Companhia de Jesus. Como chegamos a este lugar? O que nos tornou possível estar neste momento da história? A resposta simples é uma palavra: raízes – as nossas raízes. Hoje é o fruto das nossas raízes.

A província que hoje inauguramos tem raízes profundas – raízes que se estendem no tempo, tanto tempo que algumas delas são enredadas e mistificantes; a província que hoje inauguramos tem raízes em datas históricas, em personalidades e povos coloridos, em diversas nacionalidades e em lugares encantados.

Pensemos no ano de 1541, quando Francisco Xavier, um dos fundadores da Companhia chegou à Ilha de Moçambique… Ou no ano de 1561 quando Gonçalo da Silveira se tornou no protomártir da África Austral… Ou no convite feito aos jesuítas em 1875 pelo Bispo Richards para virem a Grahamstown no Cabo Oriental… Ou na visita do Régulo Chinamora a Chishawasha em 1892.

E falando em personalidades e povos que dão cor às nossas raízes, pensemos no valente Augusto Law, no imaginativo Henri Depelchin, no santo Francis Richartz, no indomável Peter Prestage, no invencível Domingos Mlauzi….

Lembremo-nos do Rei Lobengula Khumalo, do Régulo Sitcheraba, de Lozi Litunga Lewanika…. Do Catequista Regis Chigwedere e Titus Munyaradzi, o primeiro estudante negro a entrar pelas portas do Colégio St. Georges.

E lembremo-nos também do “Caçador Risonho”, o irmão Louis de Vylder, do criativo Joseph Moreau, do sábio Cardeal Adam Kozlowiecki e de Ezekiel Gwembe; do efervescente Xolile Keteyi e de Joachim Chisemphere; dos inovadores Michael J. Kelly e Charles Chilinda; do infatigável Fidelis Mukonori, de Pete Henriot, de Mike Lewis…

Ou imaginemos os lugares encantados onde as nossas raízes foram plantadas na África Austral… na Corte de Monomotapa Negomo Mapunzaguto, em Gorongosa, Lifidzi, Graaf Reinet, Empandeni, Kachebere, Old Tati, Boroma … Todos eles marcos históricos da Missão da Zambézia.

Estas são as raízes que nos trouxeram a este lugar e a este momento.

O músico reggae sul-africano Lucky Dube canta melodiosamente sobre “Voltar às minhas raízes…” Voltar às nossas raízes é uma empresa arriscada. As Raízes de Alex Haley desencadearam memórias trágicas e traumáticas de escravatura, crueldade e desumanidade.

Há tragédia e trauma, também, na história da Companhia de Jesus na África Austral. Por mais de um século, os nossos antepassados suportaram longas viagens a pé, de barco e carros de boi; alguns foram expulsos várias vezes e separados uns dos outros; outros foram martirizados por estarem ao lado do povo fraco e oprimido; e muitos foram dizimados por doenças. E não devemos fugir à culpa dos nossos antepassados que foram infectados pelos vírus do colonialismo, do apartheid e do racismo e também os espalharam.

Ainda assim, as nossas raízes – perturbadas por vezes – mantiveram-nos próximos e fortes e os nossos antepassados continuaram a insistir – criando gramáticas e dicionários; abrindo escolas e fazendo currículos; construindo igrejas e hospitais; criando missões, explorações e projectos agrícolas, projectos de comunicação, centros de espiritualidade e todo o tipo de apostolados. Pelo seu trabalho, nutriram e cuidaram das nossas raízes.

Por mais glórias ou inglórias que tenhamos no nosso passado, as nossas raízes não são nem um cemitério nem um museu de memórias; as nossas raízes contêm uma fonte inesgotável de criatividade, inovação e oportunidades. É por isso que hoje estamos a abrir uma nova página na nossa história porque Deus nos assegura que, tal como Maria, cuja anunciação ouvimos no Evangelho, apesar do futuro da Província da África Austral ser desconhecido e imprevisível, está certamente grávido dos sonhos e das promessas de Deus.

Tal como Maria, todos os jesuítas – noviços, escolásticos, padres ou irmãos – e todos os colaboradores – livings seeds of the future – sent to grow new trees of faith and spread new roots of the Gospel of Jesus Christ.

Hoje, como ouvimos na primeira e segunda leituras, Deus anuncia algo novo, mesmo no meio de uma pandemia que sacudiu severamente as nossas vidas. Somos testemunhas e arquitectos desta nova história. Haverá muitos outros que virão atrás de nós; cujas vidas serão moldadas pelo que fizermos da missão da Companhia a partir deste momento; mulheres e homens para quem, a partir deste momento, nós também nos tornamos raízes e antepassados.

Para “trabalhar a redenção da raça humana”, como diz Inácio nos Exercícios Espirituais(n.º 107), Deus solicitou o consentimento e a cooperação de uma adolescente da Galileia, Maria. Para trabalhar a inauguração, crescimento e progresso desta nova empresa, Deus solicita da mesma forma a nossa colaboração e convida-nos a mostrar “grande espírito e generosidade” (Exercícios Espirituais, n.º 5). Quando a história da Província da África Austral for contada daqui a 145 anos, será uma história escrita com as nossas vidas e a nossa missão.

Tal como com os nossos antepassados, novas “fronteiras e desafios” apostólicos se desenrolam agora diante de nós por toda a África Austral e não só; chamam-nos a abraçar “obstáculos ou fins” como “novos desafios a enfrentar, novas oportunidades a serem acolhidas” com “uma ousadia sagrada, [and] [e] ‘uma certa agressividade apostólica’” (CG 34, d. 26, no. 27). Em vez de carros de boi vamos encher as estradas com Amarok; em vez de telégrafo, estamos armados com smartphones; e, em vez de negociar tratados com reis e régulos, vamos discernir, trabalhar em rede e colaborar com parceiros na missão de Cristo de construir o Reino de Deus na África Austral.

As nossas raízes são profundas, resistentes e prósperas. Mas hoje não é apenas “a história de como começamos a recordar” (Paul Simon, “Sob o Céu Africano”). A mesma lua e estrelas da África Austral que brilhavam nos rostos dos nossos antepassados há décadas dirigem e iluminam agora os nossos caminhos. As mesmas águas do Zambeze que alimentaram as viagens e a “Fé dos nossos pais e irmãos” surgem agora com um novo ritmo levando por diante a nossa empresa apostólica.

À medida que remamos juntos para águas profundas, em direcção a novas fronteiras e horizontes (ver logotipo de GC 36, logotipo de SAP e Lucas 5: 4),

Que Deus mantenha a nossa fé, levante a nossa esperança e expanda o nosso amor para encher as velas dos nossos sonhos e visões apostólicas na Província da África Austral.

Que a profecia de Isaías nos dê coragem e o anúncio do anjo Gabriel nos encha de energia pois na província da África Austral, “Deus está connosco” e “nada é impossível para Deus”.

Amen.

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