9 de junho 1597 – St José de Anchieta (1534-1597)

St José de Anchieta (1534-1597)

José de Anchieta foi um missionário jesuíta, poeta e o primeiro autor brasileiro. Foi canonizado pelo Papa Francisco a 3 de abril de 2014. Conhecido como o ‘Apóstolo do Brasil’, São José foi descrito pelo Padre Geral Adolfo Nicolás SJ como ‘inspirador e extremamente relevante para os dias de hoje’.

José era de ‘estatura mediana, magro, de espírito forte e decidido, feições bronzeadas, olhos azulados, testa larga, nariz largo, barba rala e com um rosto alegre e amigo’. Passou 44 anos a percorrer o Brasil e a levar a Boa Nova do Evangelho aos seus povos.

O terceiro de dez filhos nasceu em Tenerife (Ilhas Canárias) em 1534. Cedo na vida foi enviado para estudar na Universidade de Coimbra (Portugal) e aí nasceu a sua vocação para a vida religiosa. Admitido no noviciado da Companhia em Portugal em 1551, Anchieta contraiu grave tuberculose óssea aos 17 anos, causando uma visível curvatura nas costas. A sua angústia de ser considerado inútil para o apostolado foi atenuada pelas palavras consoladoras de Simão Rodrigues, fundador da Província portuguesa: ‘Não fiques triste com essa deformação. Deus ama-te tal como és’. Além disso, foi encorajado por cartas do P. Manuel de Nóbrega no Brasil que proclamavam os benefícios do clima para a saúde em qualquer tipo de doença. E assim Anchieta, logo após pronunciar os seus primeiros votos, foi para lá a 8 de março de 1553, aos 19 anos.

É um paradoxo que este jovem jesuíta, que se supunha ser fisicamente frágil, tenha exercido uma intensa actividade apostólica durante os 44 anos seguintes, até à sua morte, aos 63 anos. ‘Não basta sair de Coimbra’, escreveu ele aos seus irmãos, ‘com um fervor que logo murcha, antes mesmo de cruzar o equador e desejar voltar para Portugal. É necessário ter os alforjes cheios para durar até ao final do dia’.

O P. Geral Nicolás escreveu: “Os desafios da nossa missão hoje exigem cada vez mais ‘a revitalização do corpo apostólico’da Companhia. A fonte da qual Anchieta tirou a sua vitalidade apostólica foi a sua profunda experiência espiritual. A solidez da sua reputação como santo e fazedor de milagres repousa no seu amor, oração, humildade e serviço”. Um jesuíta que conheceu Anchieta descreveu-o como sendo ‘um homem fiel, prudente e humilde em Cristo, muito querido por todos, de quem ninguém se queixa, nem me é possível encontrar nele uma palavra ou ação em que ele tenha feito algo errado’. Amigo sincero de todos, Anchieta soube combinar a bondade com o rigor e a firmeza, como Santo Inácio desejava em todo o bom superior. Apesar das suas doenças muito visíveis, o seu tempo como provincial foi dinâmico e fecundo.

Como já foi mencionado, ele viajou constantemente e dedicou-se a um estudo profundo da língua tupi, o que ao mesmo tempo lhe permitiu uma grande atividade missionária e catequética. Nomeado provincial em 1577, fez visitas contínuas às casas e comunidades jesuítas. Para o povo era pai e tratava dos doentes e dos que sofriam, era também conselheiro de governadores e ao mesmo tempo amigo e defensor da população local.

Em 1595 ele ficou livre das responsabilidades do governo, mas restavam-lhe apenas dois anos de vida. Usou-os em parte para escrever uma História da Companhia de Jesus no Brasil, uma obra da qual restam apenas fragmentos.

O P. Geral Nicolás continua: «Anchieta não foi movido a uma vida itinerante por um espírito de aventura, mas sim por um espírito de disponibilidade para a missão, de liberdade espiritual e de prontidão para procurar e encontrar a cada momento a vontade do Senhor. Um verdadeiro fogo apostólico acompanhou-o até o fim».

Com o P. Nóbrega, José de Anchieta participou da fundação do Rio de Janeiro e escreveu uma obra em latim sobre isso. Escreveu também um drama religioso intitulado Pregação Universal, inspirado na cerimónia de recepção indígena a pessoas ilustres e aqui introduziu na língua tupi a técnica de verso e estrofe típica do teatro português. Soube colocar ao serviço da missão os seus dons de humanista: o domínio da gramática, o gosto pelos clássicos latinos e a sua habilidade na oratória. Com grande fecundidade, compôs em tupi os Diálogos da Fé (um catecismo popular da doutrina cristã) e adaptou pequenos textos para a preparação para o batismo e a confissão. Também escreveu uma gramática tupi.

Sempre agente de reconciliação, envolveu-se profundamente no diálogo com os índios Tamoyo, a ponto de ser feito refém e de viver entre eles como prisioneiro durante cinco meses. Quando a paz foi estabelecida com os Tamoyos e ele recebeu a sua liberdade, escreveu um longo poema a Maria na areia, já que não tinha papel. Memorizou o que havia escrito e transcreveu-o mais tarde. O folclore popular, adaptado como música religiosa, auxiliou-o nas apresentações de dramas em português e em tupi. Foi incessante a sua atividade de enriquecimento da pastoral e da catequese entre o povo com apresentações teatrais festivas. Considerou indispensável o conhecimento da psicologia indígena. «Temos muitos motivos para agradecer ao Papa Francisco por apresentar José de Anchieta ao mundo como um novo e notável exemplo de santidade», escreveu o P. Nicolás em 2014. «Para a Companhia de Jesus é uma ocasião para renovar com intensidade a busca dos horizontes que perseguiu e que são sempre novos: sensibilidade diante da diversidade étnica e do pluralismo religioso, cultural e social; o desenvolvimento incansável de uma nova liberdade criativa e uma capacidade responsável de improvisação; a busca constante de expressões inculturadas da experiência cristã e evangelizadora”.

por Pe. David Harrold-Barry, S.J.

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